marcos tabarez, brasil
DURA LEI – OU UM CANTO PARA VOCÊS Marcos Tavares
(Para meu filho Rafael e para Wladimir Herzog, que não conseguiu dar uma Constituição ao seu filho)
1 Rafael, o que te damos hoje é uma Constituição.
Ela nos custou algumas porradas no porão, alguns dentes a menos e neuroses a mais.
Custou os pais de alguns filhos e os filhos de alguns pais, que hoje não podem – como eu – te dar a Carta da Nação.
2 Rafael, uma Constituição se faz menos com palavras e mais com ações.
A minha geração criou leis e ditaduras criadores e criaturas políticos e polícia.
Escreveu outras Constituições e no berço esplêndido das paixões rasgou-as.
Essa que te dou é falha, errada como tudo que fizemos, frágil como o tempo que vivemos, mortal como os Guevaras que morremos.
Essa que te dou é falha, uma tralha de Leis, que inventamos para que possamos nos ufanar de uma Nação.
3 Meu filho, todos são iguais perante a Lei. É só o que sei que está escrito e sei a tinta que usaram.
Há sangue respingando, dentes quebrados, choques aplicados para que se fizesse uma Constituição.
Não que ela seja a Carta que eu queria te dar. Mas é a Carta promulgada e contra ela nada – eu disse nada – poderá ser feito.
A não ser, – é teu direito – que a tua geração desça de novo ao inferno do porão e recrie sua própria Constituição.
4 Não há Leis para a concepção, não há Constituição para o amor. Nada regula a dor nem o perdão. Como igualmente a chuva do verão não precisa de um legislador para que caia.
Nenhum artigo obriga que o sol saia todo dia. Ninguém marcou quando inicia a primavera.
Nem as tábuas da Lei determinaram as eras.
Rafael, não sei o que você espera desta nação.
Essa fratura exposta na América esse incontinenti país de irmãos bastardos. Não sei o que te dirá esta Constituição esse remédio tardo essa doença antiga essa maleita amiga a arrepiar de civismo nossos pêlos. Não sou eu a te fazer apelos de fuzil na mão. Nem a te falar de auri-verde pendão ou Pátria amada.
Idolatrada hora da razão.
5 Não sou o pai sou o irmão.
Ambos cidadãos deste País Brasil. Ambos Tiradentes de um abril qualquer. Pedros primeiros sem espada.
Ambos legisladores e guardiões dessa Lei promulgada.
E ambos, sem entender nada.
(Da antologia “Autores paraibanos – Poesia”, Editora Grafiset, João Pessoa-PB, 2006).
envio rui mendes
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Por lobitogabriel - 23 de Junio, 2006, 6:26, Categoría: poesia
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